Êxodo 32.1–8, 19–20
A narrativa de Êxodo 32 nos coloca diante de um contraste profundo: enquanto Moisés estava no monte, envolvido pela glória de Deus e recebendo as tábuas da Lei, o povo permanecia no vale, fabricando um bezerro de ouro. No alto havia revelação, santidade e pacto; embaixo, impaciência, insegurança e idolatria.
O problema não era apenas a demora de Moisés, mas a incapacidade do coração humano de confiar no Deus invisível. Louis Berkhof ensina que o pecado é mais que um ato isolado; é uma condição de rebelião que inclina o ser humano à autonomia. Israel não queria abandonar totalmente o Senhor, mas desejava um deus moldado segundo suas expectativas, visível, manipulável, imediato.
A história da igreja confirma essa tendência. Justo González mostra que, em todas as épocas, os cristãos enfrentaram a tentação de adaptar a fé às pressões culturais. Cada geração possui seus próprios “bezerros de ouro”: poder, prestígio, prosperidade, ideologias ou prazeres passageiros.
Nesse contexto, é necessário discernimento quanto ao espírito do nosso tempo. O carnaval, cuja origem histórica remonta ao período que antecedia a quaresma, marcado por excessos antes do jejum, tornou-se símbolo da exaltação dos desejos humanos e da celebração da autonomia da carne. Mais que uma manifestação cultural, revela uma cosmovisão centrada no prazer imediato.
John Bunyan, em O Peregrino, descreve a caminhada rumo à Cidade Celestial. O peregrino atravessa vales sombrios e enfrenta seduções que poderiam desviá-lo do caminho. A Cidade Celestial representa a esperança escatológica; o vale, as distrações e perigos do presente. Se nossos olhos se fixam apenas no que é imediato, facilmente nos desviaremos. Mas se contemplamos a glória futura, suportamos a espera e permanecemos fiéis.
Vivemos, portanto, entre a glória e o vale. A glória aponta para a presença de Deus e para a consumação do Seu Reino; o vale nos lembra das tentações que nos cercam. Bavinck recorda que toda a história converge para a restauração final em Cristo. Berkhof ressalta que a santificação é obra contínua do Espírito, separando-nos do mundo e conformando-nos à imagem do Filho. A igreja fiel é aquela que mantém os olhos na eternidade enquanto caminha no tempo.
Que não troquemos a glória eterna por ídolos passageiros. Que não substituamos a esperança da Cidade Celestial pelos festejos efêmeros do vale. Em dias de exaltação da carne, sejamos um povo que exalta a cruz. Em meio às danças ao redor de ídolos modernos, sejamos um povo que sobe ao monte em oração.
Ronelx Aguilar Villavicencio.