Texto-Base: Atos 10
Em 2019, Deus me deu a oportunidade de visitar duas províncias de Moçambique para pregar e ensinar em diversas igrejas. Foi uma experiência que ampliou minha compreensão da igreja de Cristo. Entre tantas lembranças, duas ficaram profundamente marcadas em meu coração.
Na primeira, conheci uma igreja que proibia as crianças pobres do outro lado da rua de frequentar os cultos, para que não se misturassem com os filhos dos membros de classe média.
Na segunda, em uma província diferente, participei da Ceia do Senhor sentado no chão empoeirado de uma pequena igreja de paredes simples, enquanto, ao redor, irmãos celebravam a Deus com gritos de alegria e danças. Eram práticas e formas de culto muito diferentes daquelas às quais eu estava acostumado.
Essas experiências me fizeram refletir sobre as fronteiras que, muitas vezes, nós mesmos construímos. Algumas excluem pessoas; outras apenas revelam a diversidade do povo de Deus. Em ambos os casos, Atos 10 nos lembra que a graça do Senhor é maior do que qualquer barreira cultural.
A história da igreja é marcada por momentos em que Deus rompe fronteiras construídas pelos homens. Atos 10 registra um desses acontecimentos decisivos. Pedro, um judeu fiel às tradições de seu povo, recebe uma visão do Senhor que desafia seus conceitos e amplia sua compreensão do evangelho. Ao mesmo tempo, Cornélio, um centurião romano, homem piedoso e temente a Deus, é preparado pelo Espírito Santo para receber a mensagem da salvação.
Quando Pedro entra na casa de Cornélio, algo extraordinário acontece. Pela primeira vez, um apóstolo anuncia deliberadamente o evangelho aos gentios. Então Pedro declara: “Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável” (Atos 10.34-35).
O evangelho rompe fronteiras étnicas, culturais, sociais e religiosas. A graça de Deus não está confinada a um povo, a uma língua ou a uma cultura. Ela alcança todos aqueles que, pela fé, creem em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Essa passagem também confronta a igreja de nossos dias. Ainda podemos levantar barreiras invisíveis por meio de preconceitos, preferências, tradições ou zonas de conforto que limitam nossa disposição de levar o evangelho. Entretanto, Deus continua chamando seu povo para atravessar fronteiras e anunciar as boas-novas sem distinção.
A missão da igreja é refletir o coração do Pai. Assim como Pedro precisou abandonar antigos paradigmas para obedecer ao Senhor, nós também somos chamados a enxergar as pessoas não pelos rótulos que carregam, mas pelo valor que possuem diante de Deus. Onde houver alguém necessitado da graça, ali existe um campo missionário.
A conversão de Cornélio e de toda a sua casa revela que o Espírito Santo já está operando nos corações antes mesmo de nossa chegada. Nossa responsabilidade é obedecer, anunciar Cristo e confiar que Deus continuará realizando sua obra.
Ao recordar aquelas duas igrejas em Moçambique, percebo que ambas me ensinaram uma importante lição: no Reino de Deus, a verdadeira unidade não nasce da uniformidade de costumes, mas da obra redentora de Cristo, no modelo por Ele prescrito das Escrituras.
Por: Sem. Ronelx Aguilar Villavicencio