Por Que Tudo Isso?

Há momentos em que o coração pergunta em voz baixa, quase sem coragem de formular a pergunta completa: por que tudo isso? Por que perdoar de novo? Por que ir atrás de quem nos magoou? Por que tratar com misericórdia alguém que não mostrou o menor arrependimento? Pedro fez uma pergunta parecida. E ele já achava que estava sendo generoso: “Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18.21-22, ARA). Não é uma equação. É uma provocação ao coração. Quem foi alcançado por uma graça que não tem tamanho não pode passar a vida medindo a misericórdia em colheradas.

Para deixar isso mais concreto, Jesus conta uma história. Um servo devia ao seu rei uma quantia que ele nunca, em nenhuma vida, conseguiria pagar. O rei poderia ter agido dentro do seu direito. Em vez disso, teve compaixão e cancelou tudo. Mas esse mesmo servo, ao sair da presença do rei, encontrou alguém que lhe devia uma fração ridícula daquele valor e o agarrou pelo pescoço. O contraste não é acidental. Jesus está nos mostrando algo que dói ver: a falta de perdão nasce do esquecimento. Quando a gente esquece o tamanho da graça que recebeu, começa a exagerar o tamanho da dívida do outro.

A verdade do Evangelho é que fomos perdoados não porque éramos merecedores, mas porque Deus, em Cristo, agiu por pura graça soberana. Nossa dívida diante dele era real, era grande, e era impagável. Cristo a assumiu. Por isso, Paulo não sugere, ele ordena: “Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou” (Efésios 4.32, ARA). O fundamento do perdão cristão não é a leveza da ofensa que recebemos, mas a grandeza do perdão que recebemos.

Vale dizer o que perdão não é, porque há muita confusão nisso. Perdoar não é fingir que não doeu. Não é encobrir o pecado nem chamar o mal de bem. Não elimina, necessariamente, consequências, limites ou a necessidade de prudência. Mas o perdão faz algo que nenhuma outra coisa consegue: impede que a ferida vire prisão. Ele entrega a justiça nas mãos de Deus, solta o peso da vingança e abre espaço para que a graça, e não a amargura, governe o coração.

Então, por que tudo isso? Porque Deus nos perdoou em Cristo. Porque a igreja não sobrevive como comunidade se não respirar o mesmo evangelho que recebeu. Porque famílias, amizades e irmandades não se sustentam só pela afinidade — elas precisam de graça, de arrependimento genuíno e de perdão real. Porque quem foi tratado com misericórdia, pela ação do Espírito, aprende — devagar, com tropeços, mas aprende — a tratar os outros da mesma forma.

Que o Senhor nos dê um coração humilde para lembrar a dívida que nos foi perdoada, coragem para buscar reconciliação quando possível, e graça para perdoar como fomos perdoados: em Cristo, por Cristo e para a glória de Cristo.

Rev. Danillo Scarpelli Dourado